quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Para leitores e educadores

Para leitores e educadores transcrevo o artigo de Claudio de Moura Castro publicado na veja desta semana:

 A GRANDE REFORMA EDUCACIONAL                 

Contrariando os saudosistas, afirmo que a educação no Brasil nunca foi grande coisa, mediocridade percebida apenas por espíritos mais alertas. A diferença é que hoje há mais impaciência com as suas mazelas. Diante dessas críticas, passadas e presentes, nossas doutas autoridades são pressionadas a tomar providências enérgicas. Mas e os custos políticos? E os calos em que se há de pisar? E a truculência dos que não querem perder suas sinecuras e confortos? E as greves? Com espantosa criatividade, nossos líderes encontraram uma saída para esse impasse: criou-se um tipo de reforma que, além de indolor, tem visibilidade na mídia escrita e falada. A ideia é simples: em vez da truculência de remexer pessoas e instituições, reformam-se os nomes e títulos de tudo o que acontece na área. Brilhante!Sem trauma!
Antes tínhamos “instrução pública". Já faz tempo que mudou. Agora é "educação pública". Tínhamos primário, secundário e terciário (ou universitário). No secundário, havia o ginasial e o colegial. E esse último podia ser clássico ou científico. Estava ruim. Foi consertado para o 1º grau, 2° grau e 3º grau. Não melhorou o suficiente. Para sanar as mazelas restantes, foi criada a educação básica, dividida em ensino fundamental e médio. Em uma conversa entre pessoas de três gerações, os mais velhos rememoram suas experiências no primário, os menos velhos sobre o que faziam no 1º grau e a juventude reclama do fundamental. É o desejado diálogo intercultural. Estudei meu primário no Colégio Rodrigues Alves (RJ). Pouco depois, foi preciso salvar essa instituição, mudando seu nome para Escola Rodrigues Alves. Comecei no 1º ano, minha filha na 1ª série. E, se ela já tivesse um filho, ele iria cursar o 1º ano. Lá na década de 70, foi criado o curso de engenharia de operações. Mas parece que o nome não trazia bons augúrios. Daí a criação dos tecnólogos. Para expandirem a sua relevante contribuição, os luminares da educação transformaram recentemente esses programas em cursos superiores de tecnologia. Vejam que progresso! Havia uma prova chamada de Artigo 99. Ao que parece, não era um nome à altura dos seus nobres objetivos. Daí que virou supletivo. Mas imaginem se os novos e insignes educadores vão abrir mão de deixar sua marca indelével em uma iniciativa de tanta relevância social. Daí a sua decisiva contribuição, pois agora se chama EJA.

Quando fui para o colégio (que virou escola), tinha disciplinas de português. Mas a geração seguinte foi privilegiada, passando a estudar a língua pátria, obviamente, um enorme progresso. Pelo que sei, esse assunto voltou a se chamar português. Um retrocesso? Bem cedo, tinha de fazer composições, sobre diferentes assuntos. Mas nossas sábias autoridades acharam por bem corrigir um erro histórico. Para tal, aquela página de garranchos virou redação. Mas a reforma ainda era imperfeita; para completá-la foi necessária uma nova correção de rumo. Agora é produção de textos. No passado, tentávamos alfabetizar, nem sempre com sucesso. Agora foi salva a situação, pois o objetivo é o letramento. Viram que evolução? Quando estudei análise sintática, labutando nos Lusíadas, aprendi que havia sujeito, verbo, predicado e objeto. Felizmente para a nação, as novas gerações foram poupadas do aprendizado autoritário que me foi imposto. Agora, essas classificações gramaticais não fazem sentido algum, nem para professores nem para alunos. Importa o contexto, a inferência, a leitura de mundo... Antes, havia alunos valentões, agora praticam o bullying. Vejam como crescemos. Havia também alunos bagunceiros, agora temos vítimas de transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH). Antes iam para as palmatórias, varas de marmelo e outros apetrechos do gênero. Agora, vão para a Ritalina (medicamento para hiperativos). É o progresso.
É injusto não sentir um profundo agradecimento para com as nossas autoridades educacionais. A elas devemos todas essas incontáveis reformas, realizadas sem traumas nem conflitos. Mas será que não está na hora de se preocuparem com os reais problemas da nossa educação?

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